“A vida é uma viagem, precisamos apenas escolher um caminho.” é a frase que consta no pôster do filme Transamérica (Tucker, 2005), cuja imagem representada é a da protagonista transexual Bree frente a duas portas, uma com o símbolo referindo-se ao masculino e outra ao feminino. Começo meu trabalho com essa frase não por acaso, mas como forma de introduzir uma discussão acerca da análise de implicação em minha prática de estágio.
A frase acima apresentada, bem como o conteúdo imagético do pôster ao qual pertence, lançam a ideia de que, inevitavelmente, escolhemos caminhos para nossas vidas. Ainda que muitas vezes tais portas sejam apenas construções semânticas e não necessariamente seja preciso viver em uma OU outra, a análise de implicação vem como forma de reflexão e compreensão de em qual dessas portas ingressamos e que caminho percorremos até então.
Pois a minha porta de estágio foi aberta um pouco mais tarde quando comparado aos colegas. Em um segundo semestre de 2009 em que minha vida pessoal entrou ferozmente e começou a agir sobre a minha formação em psicologia, eu, antes adepto das neurociências, fui jogado aos leões do afeto da pós-modernidade. Fiquei desamparado e confuso, pensando e agindo na direção de abandonar o curso de psicologia até que, já em dezembro (quando todos os colegas já tinham locais onde estagiar, exceto eu) a professora JT, sensibilizada pela minha situação, indicou “Ainda há vagas para o estágio no Pró-Saúde, Rodrigo”.
Dessa forma, em 18 de dezembro de 2009, reuni-me com a professora RGT com a finalidade de ingressar em um estágio, que acompanharia uma ênfase e, ainda, uma mudança de vida. Dessa forma fica claro que a minha inserção na ênfase não foi algo planejado e, bem pelo contrário, foi graças à falta dele.
Enfim, em março, ingressando no Pró-Saúde deixei claro que meu interesse era trabalhar junto à psicóloga DCC, tanto por uma identificação com sua perspectiva teórica acerca da psicologia (com formação em psicologia cognitiva) quanto pela sua área de atuação (no Centro de Orientação e Apoio Sorológico - COAS). Interesses tais que vem de algo anterior; na área da psicologia cognitiva tinha interesse por razão do meu percurso na própria universidade, e na área de HIV/AIDS por estar imerso nisso desde pequeno, visto que é também a área de atuação do meu pai.
Ainda no início do ano, logo após assistir a um rapaz apanhar de outro por razão de orientação sexual, procurei no Google as seguintes palavras-chave “curso de direitos humanos Porto Alegre” e encontrei um curso oferecido pelo SOMOS – Comunicação, Saúde e Sexualidade. Matriculei-me no curso que tinha um mês de duração, razão, inclusive, de algumas faltas minhas às disciplinas no primeiro mês de aulas.
Ao fim do curso fui chamado para uma entrevista com a psicóloga da organização, quem me informou que a equipe do SOMOS tinha gostado de mim e que teriam interesse que eu passasse a fazer parte do projeto “Qual é a sua?”, de prevenção de HIV/AIDS entre jovens gays e bissexuais, na condição de monitor. Com bem sabem, aceitei o convite e tal pratica também passou a integrar meu estágio nas políticas de HIV/AIDS.
Iniciei o trabalho no SOMOS acomodado em uma pequena mesa posicionada entre estantes de livros do Centro de Documentação da organização e finalizo meu trabalho esse ano localizado em uma sala construída onde antes era uma garagem vazia. Na parede próxima ao computador em que trabalho há um pôster, com mais de um metro de comprimento, do filme Transamérica (fato que constitui uma segunda razão especial para que eu iniciasse meu trabalho final de ênfase com uma frase do referido pôster).
Além da compreensão dos fatos que me trouxeram até o presente momento, é dever dessa análise de implicação colocar em análise e compreender quais as instituições que atravessam a minha prática atual. Dessa forma, dou destaque também à própria função “estagiário de Políticas Públicas”, tentando chamar a atenção para o papel que essa ocupa em relação a mim, à universidade, e ao próprio estágio.
Tucker, D. (Director & Writer)(2005) Transamérica. USA.
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