No Grupo de Adolescentes da Pedreira – GAP, para discutir o respeito às diferenças, dentre as intervenções mais interessantes, exibimos o filme Escritores da Liberdade (LaGravenese, 2007), que retrata a situação de brigas de grupos juvenis nos Estados Unidos, abordando a violência e falando também sobre o holocausto e a Segunda Guerra Mundial.
Em outro momento, também levamos ao grupo duas Israelenses que estavam de férias no Brasil após cumprirem os anos obrigatórios de serviço militar em Israel. O encontro foi ótimo para que tanto as estrangeiras quanto os adolescentes do grupo pudessem experimentar a diferença. A própria comunicação teve de ser mediada por mim, visto que as Israelenses falavam apenas Hebraico e Inglês. Além dessas intervenções houveram muitas mais, uma vez que o grupo teve duração de mais de um semestre com encontros semanais, apenas não as citarei aqui para não me estender demais no relato.
Referente às intervenções realizadas no SOMOS, dividi-as também de acordo com os componentes da vulnerabilidade:
No primeiro componente citado, o individual, minhas ações foram principalmente de criação de materiais informativos referentes à prevenção da infecção. Desde minha entrada no SOMOS, pude participar da elaboração de dois materiais sobre práticas sexuais e redução de danos (disponíveis para visualização online sob a opção “Dicas” do menu do site Qual é a sua?). Com o mesmo objetivo, realizei discussões em seis turmas escolares em que expunha questões específicas sobre a infecção pelo HIV e os serviços da rede pública relacionados.
Sobre o componente social da vulnerabilidade, embasado na ideia de que o preconceito reflete sobre a autoimagem, e essa sobre o autocuidado, participei da execução de laboratórios culturais para LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), com finalidade de empoderar essa população e desconstruir os preconceitos.
Realizei ainda, nas mesmas turmas escolares já citadas, debates acerca da construção social da sexualidade, do gênero e do preconceito, incitando a discussão a partir de brincadeiras elaboradas por mim e a partir dos curtas-metragens “Por Outros Olhos” e “Novamente” feitos através da parceria entre o Grupo Arco-Íris e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Fui convidado a compor, inclusive, uma mesa sobre protagonismo juvenil no I Encontro Regional Sul da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids. Na qual falei sobre o conceito de vulnerabilidade e da importância do controle social, não apenas nas instâncias destinadas especificamente a isso, mas até mesmo no atendimento dos serviços de saúde, no qual o jovem pode exigir o cumprimento de seus direitos (ex.: distribuição de preservativos para menores de 18 anos, visto que é recorrente que o funcionário público viole esse direito devido a um atravessamento moral).
Por último, ministrei o Curso de Direitos Humanos e Diversidade Sexual realizado pelo SOMOS, que reuniu estudantes de diversos cursos de diversas universidades, também com o objetivo de empoderar essa população e gerar encaminhamentos e intervenções sobre os Direitos Humanos. Como finalização do curso, e aproveitando as circunstâncias (o último encontro ocorreria no dia 10 de dezembro, data em que foi criada a Declaração Universal de Direitos Humanos; e houve também a denúncia de violência contra homossexuais na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre – UFCSPA) organizei e realizei uma manifestação em frente à Universidade, que acabou por crescer e incorporar outras entidades e muitos simpatizantes. Tal acontecimento me permitiu trabalhar com a política e a mídia como ferramentas, visto que a ação deu visibilidade e ainda dei algumas entrevistas para emissoras de rádio e televisão. Segue o panfleto escrito por mim e entregue durante a manifestação:
Outra imagem que coloca em análise os espaços e ferramentas possíveis para um estágio em psicologia:
Para atingir o componente programático citado por Ayres et al. (2003), fiz visitas aos três Centros de Testagem e Aconselhamento da rede pública de Porto Alegre, avaliando as políticas de HIV/AIDS a partir da execução. No âmbito da gestão, participei de uma reunião com a Secretária Estadual de Saúde e os representantes da Comissão de AIDS do Estado, conseguida através do Centro de Apoio de Direitos Humanos do Ministério Público Estadual e com a finalidade de pressionar o Estado para a criação de campanhas para a prevenção do HIV, visto que tais campanhas praticamente não existem. Acredito que ações sobre o controle social ficaram faltando.
Quanto à minha ação sobre a posição de estagiário, coube a mim, através das práticas que citei acima, questionar justamente essa ideia cristalizada de estágio inserido em um único serviço, colocando o foco do estágio não no campo de trabalho, mas na política em análise.
Como intervenção, auxiliei ainda a criação do estágio curricular de Ênfase em Psicologia Social e Políticas Públicas no SOMOS, escrevendo o formulário de estágio a partir da minha compreensão da ênfase, que, como já expus, coloca nas políticas públicas o objeto de análise e intervenção, compreendendo ações em gestão, controle e execução. Segue a justificativa de estágio escrita por mim no formulário:
“O estágio no SOMOS possibilita aos estudantes a experiência de atuação nas diversas instâncias de construção das políticas públicas perpassando os espaços de gestão, execução e controle de tais políticas. A inserção nesta entidade da sociedade civil organizada permite uma posição diferenciada aos estudantes, uma vez que não há subordinação direta aos órgãos governamentais. Outro aspecto positivo é o da construção de conhecimentos de forma interdisciplinar na área da diversidade e da antidiscriminação, reunindo uma equipe composta por profissionais de psicologia, pedagogia, serviço social, direito, publicidade, artes, etc., fundamentando também ações intersetoriais.”
Conversei também com a psicóloga DCC, do COAS, sobre a possibilidade de que os futuros estagiários das políticas de HIV/AIDS que se vincularão ao SOMOS possam experimentar a execução das políticas a partir de uma breve inserção no serviço; a resposta foi positiva.
Minha restituição tanto para as atividades EM quanto DE estágio está aqui, disponível para quem tiver interesse em ler. Acredito que seja apropriado que os próximos estagiários das políticas em que atuei leiam esse relato.
LaGravenese, R. (Director & Writer) (2007). Freedom Writers. USA.
Ayres, J. R. C. M.; França Júnior, I.; Calazans, G. J. & Saletti Filho, H. C. (2003). O conceito de vulnerabilidade e as práticas de saúde: novas perspectivas e desafios. In: Czeresnia, D.; Freitas, C. M. (Orgs.) Promoção da saúde: conceitos, reflexões, tendências. Rio de Janeiro, Fiocruz.

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