domingo, 12 de dezembro de 2010

Da análise de demanda

A partir da análise de implicação já postada no blog, me foi possível compreender dois âmbitos de demanda, distintos didaticamente com a finalidade de facilitar a exposição. O primeiro consiste na demanda EM estágio, nas práticas dentro do estágio; o segundo refere-se a demanda DO estágio, a partir da análise da própria posição de estagiário.

No que se refere ao fazer EM estágio, minha atuação no Pró-Saúde exigia o cumprimento de uma demanda bem concisa de inserção da psicologia na atenção básica à saúde. Dessa forma, após ter alguns meses de vivência em aconselhamento em HIV/AIDS no COAS, passei a atuar, vinculado ao PSF Mato Grosso, no Grupo de Adolescentes da Pedreira. A participação no grupo partiu de um pedido da própria equipe do PSF, e iniciou-se com a proposta de uma oficina de sexualidade com os jovens junto a uma Agente Comunitária de Saúde (ACS).

Ao passar do tempo foi-se percebendo que sexualidade não era exatamente o foco da demanda, mas que as ações estavam atravessadas sim pela instituição do saber acadêmico. Eu e o outro coordenador passamos então a investir não tanto nesse tema, mas ampliá-lo para discussões sobre preconceito, respeito e convívio com as diferenças, objetivando a capacidade de auto-organização do grupo e levando a ideia de que eles não necessariamente teriam de se estruturar em nossa volta e depender de nós.

Houve, no entanto, uma cisão na coordenação do grupo visto que eu tinha como objetivo trabalhar a autogestão com os jovens e meu colega tinha como finalidade o matriciamento com a ACS, para que esta passasse a coordenar o grupo no futuro. Tal divergência gerou uma demanda de trabalho na própria coordenação, sobre a qual fomos incapazes de intervir e que, por essa razão, resultou em um trabalho não tão potente nem para os jovens, nem para a ACS.

Nas práticas no SOMOS, por haver maior flexibilidade e liberdade de criação nas tarefas, iniciei por estudar o conceito de vulnerabilidade para orientar minha prática na prevenção da infecção pelo HIV.

Segundo Ayres, França Júnior, Calazans e Saletti Filho (2003), tal conceito compreende três componentes interligados:

· O componente individual consiste no nível e qualidade de informação que os indivíduos têm sobre a questão do HIV, bem como a capacidade e o interesse em transformar essas informações em práticas cotidianas;

· O componente social diz respeito aos aspectos que transcendem o indivíduo, tais como “acesso aos meios de comunicação, escolarização, disponibilidade de recursos materiais, poder de influenciar decisões políticas, possibilidade de enfrentar barreiras culturais, estar livre de coerções violentas, ou poder defender-se delas, etc.” (Ayres et al., 2003), e que influenciam sobre o poder de obter as informações e incorporá-las às práticas cotidianas.

· O componente programático consiste nas influências as quais o grau e a qualidade de compromisso, recursos, gerência e monitoramento de programas nacionais, regionais ou locais de prevenção ao HIV exercem sobre os recursos sociais e individuais.

Cabe salientar que para pensar o componente programático (e nele insere-se também minhas práticas DE estágio em Políticas Públicas), parto da compreensão da atuação sobre a construção das políticas também em três âmbitos inter-relacionados: a gestão, o controle e a execução.

Na análise da demanda referente às ações DE estágio, da posição de estagiário de Políticas Públicas, foi importante perceber que o espaço esperado do estagiário era o de um trabalhador vinculado a um serviço, ou seja, um espaço focado apenas da execução das políticas públicas.


Ayres, J. R. C. M.; França Júnior, I.; Calazans, G. J. & Saletti Filho, H. C. (2003). O conceito de vulnerabilidade e as práticas de saúde: novas perspectivas e desafios. In: Czeresnia, D.; Freitas, C. M. (Orgs.) Promoção da saúde: conceitos, reflexões, tendências. Rio de Janeiro, Fiocruz.

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